Nigéria 50 Anos. Meu Pai, 87 Anos.

Em tempo.
Hoje, enquanto escrevia esta postagem, ouviu um grande, grande estrondo. Pensei comigo mesmo, “ainda bem que não estou mais no Paquistão, se fosse lá, com certeza era um ataque suicida”. Logo depois outro grande estrondo, e pensei “devem ser tiros de canhão porque eles estão comemorando a independência”. Segui escrevendo e publiquei a postagem.

Poucos minutos atrás, assistino a CNN, fiquei sabendo que dois carros-bomba explodiram hoje aqui em Abuja, Nigéria, matando pelo menos 7 pessoas. Triste dia da independência. Apesar do susto atrasado, tudo tranquilo.

Bandeira da Nigéria

Bandeira da Nigéria

Hoje, a Nigéria faz 50 anos. Parabéns à esta jovem democracia. Com sua multiplicidade racial, tribal, religiosa e linguística, a Nigéria tem um longo caminho pela frente até conseguir estabilidade econômica e social.
Estou em Abuja, a capital. Faz um mês que cheguei aqui e ainda tenho bastante dificuldade de entender as relações sociais. Acho que os nigerianos também. Abuja está em festa e espero que o tempo ajude. Nuvens negras no horizonte, literalmente.
Mesquita em Abuja

Mesquita em Abuja

Ontem, meu pai fez 87 anos.  Infelizmente comemorou seu aniversário no hospital, em São Paulo, mas espero que logo volte para casa.
Quando a Nigéria conseguiu sua independência dos Britânicos, meu pai tinha 37 anos, e eu, 4 anos.
Falei com meu pai rapidamente por telefone, utilizando o Skype. Coisa inimaginável 50 anos atrás.
Meu pai é radio-amador e eu, desde de pequeno, ficava grudado nele, acompanhando suas conversas Brasil afora. Quando a gente conseguia falar com alguma país da América do Sul ou da África, era a glória. Ele utilizava um bom portunhol. No seu “shack”, mapas e cartões do mundo todo. Eu ficava fascinado, imaginando como seriam os lugares e as pessoas com quem ele conversava.
Coma evolução da tecnologia, os contatos foram aumentando e, consequentemente os países.
Meu pai não fala inglês, mas ele tinha uma cola esperta, com os diálogos básicos necessário para o contato por rádio. Quando a conversa saia do roteiro, a gente terminava rapidamente o contato e ríamos às gargalhadas, sempre um pouco encabulados por não entender a conversa. Passei horas e horas com ele, e nos divertíamos muito mesmo. Quantas e quantas vezes não subi no telhado da casa para judar a montar ou a calibrar uma antena. Bons tempos.
Pouco a pouco, esta atividade foi ficando de lado e hoje está morta.  Mas ainda me lembro das muitas pessoas que ele ajudou durante sua vida, não só como rádio-amador, quando não existia Internet e o uso do telefone era precário.
Tive uma infância feliz com ele, saíamos do interior de Minas Gerais para passar as férias em Ubatuda. A família toda, seis pessoas, algumas vezes carregando a empregada  ou algum amigo, todos viajando na Kombi do meu pai. Era aventura atrás de aventura.
Foi em parte, devido à sua influência, que resolvi conhecer o mundo.
Hoje, aqui em Abuja, junto com os nigerianos, celebro o aniversário, não só da independência do país, mas de meu pai, um lutador e vencedor. Saúde e paz, merecidas.
Mesquita, e ao fundo a Igreja cristã, em Abuja.

Mesquita, e ao fundo a Igreja cristã, em Abuja.

Fotos: Paulo Siqueira

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12 Responses to “Nigéria 50 Anos. Meu Pai, 87 Anos.”

  1. Belo post,
    Melhoras para seu Pai e que tudo der certo para vocês.

  2. Muito, muito emocionante as palavras. Adoro teu blog. Parabens!

  3. Chorei de emoção lendo este texto. Primeiro pelas lembranças da minha infância… ainda me lembro do rádio amador que perdurou até a minha época, do prefixo “Papa Yankee Two Madrid Espanha”…

    Mas o principal motivo da minha emoção é estar longe, mas tão próximo emocional e espiritualmente, da minha família que tanto amo!

    Parabéns pelo relato pai!

    Te amo

    Bjos
    Gabi

  4. Régis, Jairo says:

    Tenho na minha lembrança esta cena: Seu Siqueira tentando fazer contato no rádio-amador; entre chiados alguém lá do outro do mundo mandava algumas palavras. De cá, seu Siqueira falava uns jargões, que eu não entendia nada. Eu arregalava os olhos e o Paulão, olhando pra mim, ria, se divertia.Adorei o seu Siqueira, de cara. Seu Siqueira é mesmo uma pessoa admirável. Aliás como toda essa família que tive a sorte de conhecer. Abraços

  5. Regina Garjulli says:

    Que texto lindo Paulão.
    Sinto pelo seu pai, pelo meu pai, por essa época que a gente vive quase entre suspiros, com a respiração pausada, aguardando uma notícia, sempre.
    Espero que o Sr. Siqueira já esteja bem. Que a Nigéria tenha se acalmado e que você volte logo para seu país.
    RE

  6. Valeria says:

    Oi Paulo. Grande Siqueira.
    Eu não os conhecia nessa época, mas o Doni disse que tem boas lembranças do quartinho no fundo de sua casa e o Siqueira falando com o mundo. Como o mundo mudou, agora tudo é tão fácil.
    Espero q o Siqueira tenha melhorado e vc tbém da Malária.
    bjs

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