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Nigéria 50 Anos. Meu Pai, 87 Anos.

Friday, October 1st, 2010

Em tempo.
Hoje, enquanto escrevia esta postagem, ouviu um grande, grande estrondo. Pensei comigo mesmo, “ainda bem que não estou mais no Paquistão, se fosse lá, com certeza era um ataque suicida”. Logo depois outro grande estrondo, e pensei “devem ser tiros de canhão porque eles estão comemorando a independência”. Segui escrevendo e publiquei a postagem.

Poucos minutos atrás, assistino a CNN, fiquei sabendo que dois carros-bomba explodiram hoje aqui em Abuja, Nigéria, matando pelo menos 7 pessoas. Triste dia da independência. Apesar do susto atrasado, tudo tranquilo.

Bandeira da Nigéria

Bandeira da Nigéria

Hoje, a Nigéria faz 50 anos. Parabéns à esta jovem democracia. Com sua multiplicidade racial, tribal, religiosa e linguística, a Nigéria tem um longo caminho pela frente até conseguir estabilidade econômica e social.
Estou em Abuja, a capital. Faz um mês que cheguei aqui e ainda tenho bastante dificuldade de entender as relações sociais. Acho que os nigerianos também. Abuja está em festa e espero que o tempo ajude. Nuvens negras no horizonte, literalmente.
Mesquita em Abuja

Mesquita em Abuja

Ontem, meu pai fez 87 anos.  Infelizmente comemorou seu aniversário no hospital, em São Paulo, mas espero que logo volte para casa.
Quando a Nigéria conseguiu sua independência dos Britânicos, meu pai tinha 37 anos, e eu, 4 anos.
Falei com meu pai rapidamente por telefone, utilizando o Skype. Coisa inimaginável 50 anos atrás.
Meu pai é radio-amador e eu, desde de pequeno, ficava grudado nele, acompanhando suas conversas Brasil afora. Quando a gente conseguia falar com alguma país da América do Sul ou da África, era a glória. Ele utilizava um bom portunhol. No seu “shack”, mapas e cartões do mundo todo. Eu ficava fascinado, imaginando como seriam os lugares e as pessoas com quem ele conversava.
Coma evolução da tecnologia, os contatos foram aumentando e, consequentemente os países.
Meu pai não fala inglês, mas ele tinha uma cola esperta, com os diálogos básicos necessário para o contato por rádio. Quando a conversa saia do roteiro, a gente terminava rapidamente o contato e ríamos às gargalhadas, sempre um pouco encabulados por não entender a conversa. Passei horas e horas com ele, e nos divertíamos muito mesmo. Quantas e quantas vezes não subi no telhado da casa para judar a montar ou a calibrar uma antena. Bons tempos.
Pouco a pouco, esta atividade foi ficando de lado e hoje está morta.  Mas ainda me lembro das muitas pessoas que ele ajudou durante sua vida, não só como rádio-amador, quando não existia Internet e o uso do telefone era precário.
Tive uma infância feliz com ele, saíamos do interior de Minas Gerais para passar as férias em Ubatuda. A família toda, seis pessoas, algumas vezes carregando a empregada  ou algum amigo, todos viajando na Kombi do meu pai. Era aventura atrás de aventura.
Foi em parte, devido à sua influência, que resolvi conhecer o mundo.
Hoje, aqui em Abuja, junto com os nigerianos, celebro o aniversário, não só da independência do país, mas de meu pai, um lutador e vencedor. Saúde e paz, merecidas.
Mesquita, e ao fundo a Igreja cristã, em Abuja.

Mesquita, e ao fundo a Igreja cristã, em Abuja.

Fotos: Paulo Siqueira

Mamãe Faz Noventa Anos

Wednesday, October 21st, 2009

De volta ao Paquistão depois de duas semanas viajando pelo Brasil entre São Paulo e Minas Gerais.

Em Minas comemoramos os 90 anos de minha mãe. A festa foi em Itapecerica, centro-oeste mineiro. Uma linda e deliciosa cidade onde o temperatura estava excelente depois do extremo calor do verão em Islamabad. Encontros coma família e uma volta ao passado.

Ao trabalho

Agora, em Islamabad, preocupação com a segurança. Há poucos dias, quando ainda estava de férias no Brasil, aconteceu um ataque suicida no escritório da ONU-WFP (World Food Program). Uma das pessoas que morreu era minha conhecida.

O destino, se você acredita nele, foi bastante cruel. Botan também estava no hotel em Peshawar que sofreu um ataque logo que cheguei aqui, em junho.

Leia a minha postagem sobre o ataque suicida ao hotel aqui.

BOTAN AHMED ALI AL-HAYAWI (ICT Officer in Dubai)

BOTAN AHMED ALI AL-HAYAWI (ICT Officer in Dubai)

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Após o ataque Botan me enviou um email contando que só não tinha morrido porque estava no banheiro na hora da explosão. Agora, o destino não o perdoou. Ele era Iraquiano, e estava aqui para uma missão de curta duração.

O suicida, vestido com uniforme militar, invadiu o escritório do WFP e se explodiu. Morreram cinco funcionários no ataque – veja o vídeo no site do WFP.

Ontem, foi um ataque semelhante na International Islamic University, também em Islamabad, onde morreram sete pessoas e trinta ficaram feridas.

Difícil entender os motivos…

O medo é generalizado e todos estão mais nervosos e sensíveis. A segurança por todo lado aumentou bastante, mas ninguém por aqui acredita que a situação vai ser resolvida tão cedo.

Tecnologia da Informação, Bombas, Ataques Suicidas e Um Dia Triste…

Monday, July 6th, 2009

A Célia, minha companheira, comentou comigo que eu devia escrever sobre o lado mais divertido do meu trabalho e não sobre coisas tristes. Acho que ela tem toda razão, mas acho importante comentar sobre a realidade a minha volta, por mais difícil que possa ser.

Na terça-feira, 9 de junho, por volta dez e meia da noite, quando me preparava para dormir, o meu celular tocou. Era de um funcionário do meu escritório em Islamabad e que ja havia trabalhado no escritório da UNICEF, em Peshawar. Peshawar é uma cidade que fica a cerca de duas horas de Islamabad  e é onde se encontra o maior número de campos de refugiados.

Na semana anterior eu tinha ido a Peshawar, onde fiz uma visita aos Campos de Refugiados (leia na postagem anterior), ao escritório do WFP (World Food Program), e ao nosso escritório regional. O objetivo era levantar dados sobre a situação de Telecomunicações – voz e dados na região. Também encontrei com um representante do grupo “Télécoms Sans Frontière – TSF”,  que é uma ONG que trabalha no suporte a emergências em todo o mundo, na área de telecomunicações.

Voltando ao telefonema, era para me avisar que uma explosão tinha acabado de ocorrer no Hotel Peshawar Pearl Continental.

Hotel Peshawar Pearl Continental depois do atentado

Hotel Peshawar Pearl Continental depois do atentado

A explosão foi em decorrência de uma ataque suicida, onde algumas pessoas entraram atirando, invadiram o estacionamento com uma camionete cheia de explosivos e se detonaram. A UNICEF tinha duas pessoas hospedadas lá e nosso pessoal da área de segurança estava tentando se comunicar com elas no hotel. Queriam saber se tínhamos algum número de contato. Desde que cheguei ao Paquistão fiquei hospedado na casa do Chefe de Operações da UNICEF. Por causa disto, o telefone dele não parava de tocar. Informei sobre explosão. Ele também recebeu um telefonema avisando. Consegui o número do telefone de nossa funcionária e passei adiante a informação.

Assim que desliguei, lembrei-me do rapaz da ONG TSF. Ele estava hospedado no mesmo hotel. Na semana anterior, quando fui a Peshawar, terminado nosso trabalho, passei pelo hotel para deixá-lo. Passamos pela segurança, um breve revista no carro. Examinam o carro por baixo, com um espelho, abrem o capô, verificam o motor. É para ver se não existe nenhum explosivo no carro. Rotina comum por todo lado aqui no Paquistão.

Peguei o celular e ligue o número do Oisin. Para minha surpresa, ele atendeu.

– Paulo, Paulo, estou ferido mas estou vivo, estou vivo, ele gritava, entre histérico e aliviado. Eu podia ouvir gritos e muito barulho. Perguntei se ele precisa de apoio e que estava à sua disposição. Ele me disse que estava bem, mas muito assustado. Me falou do colega do WFP que também estava no hotel. Ele está bem, ele também está bem. Perguntei a ele se sabia do nosso pesssoal e ele me disse que não. Oisin foi foi removido para a delegacia de polícia e depois para Islamabad.

O rapaz do WFP me depois mandou um email agrececendo o apoio e me contou que ele só sobreviu porque tinha acabado de ir ao banheiro. Isto salvou a vida dele uma vez que o seu quarto ficou totalmente destruído.

Deixei o trabalho para  o pessoal especializado da ONU – não queria atrapalhar – e a coisa toda estava muito confusa. Infelizmente nenhuma notícia do pessoal da UNICEF. Ligamos a TV e ficamos assisindo cenas do hotel destruído, chocados.

Às duas e meia da manhã recebi um telefonema avisando que o corpo de nossa companheira havia sido encontrado. Já a outra moça, foi encontrada com vida, mas estava bastante machucada e com estilhaços de vidro por todo o corpo, estava sendo removida para o hospital. Sofreu várias cirurgias.

O dia seguinte foi difícil no escritório. Bem em frente a minha sala, ficava a sala da companheira que morreu, ela era chefe da área de educação. Difícil olhar para a frente, ver a sala vazia e fechada, e flores depositadas junto à porta.

Morreram 18 pessoas no ataque suicida.  Entre eles a funcionára da UNICEF e um rapaz da UNCHR (especialista em TI). A vida de um técnico em tecnologia da informação também pode ser perigosa.

A ONU ampliou as medidas de segurança e removeu todo o pessoal internacional de Peshawar. Em hotel no Paquistão não me hospedo mais.