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Tecnologia da Informação, Bombas, Ataques Suicidas e Um Dia Triste…

Monday, July 6th, 2009

A Célia, minha companheira, comentou comigo que eu devia escrever sobre o lado mais divertido do meu trabalho e não sobre coisas tristes. Acho que ela tem toda razão, mas acho importante comentar sobre a realidade a minha volta, por mais difícil que possa ser.

Na terça-feira, 9 de junho, por volta dez e meia da noite, quando me preparava para dormir, o meu celular tocou. Era de um funcionário do meu escritório em Islamabad e que ja havia trabalhado no escritório da UNICEF, em Peshawar. Peshawar é uma cidade que fica a cerca de duas horas de Islamabad  e é onde se encontra o maior número de campos de refugiados.

Na semana anterior eu tinha ido a Peshawar, onde fiz uma visita aos Campos de Refugiados (leia na postagem anterior), ao escritório do WFP (World Food Program), e ao nosso escritório regional. O objetivo era levantar dados sobre a situação de Telecomunicações – voz e dados na região. Também encontrei com um representante do grupo “Télécoms Sans Frontière – TSF”,  que é uma ONG que trabalha no suporte a emergências em todo o mundo, na área de telecomunicações.

Voltando ao telefonema, era para me avisar que uma explosão tinha acabado de ocorrer no Hotel Peshawar Pearl Continental.

Hotel Peshawar Pearl Continental depois do atentado

Hotel Peshawar Pearl Continental depois do atentado

A explosão foi em decorrência de uma ataque suicida, onde algumas pessoas entraram atirando, invadiram o estacionamento com uma camionete cheia de explosivos e se detonaram. A UNICEF tinha duas pessoas hospedadas lá e nosso pessoal da área de segurança estava tentando se comunicar com elas no hotel. Queriam saber se tínhamos algum número de contato. Desde que cheguei ao Paquistão fiquei hospedado na casa do Chefe de Operações da UNICEF. Por causa disto, o telefone dele não parava de tocar. Informei sobre explosão. Ele também recebeu um telefonema avisando. Consegui o número do telefone de nossa funcionária e passei adiante a informação.

Assim que desliguei, lembrei-me do rapaz da ONG TSF. Ele estava hospedado no mesmo hotel. Na semana anterior, quando fui a Peshawar, terminado nosso trabalho, passei pelo hotel para deixá-lo. Passamos pela segurança, um breve revista no carro. Examinam o carro por baixo, com um espelho, abrem o capô, verificam o motor. É para ver se não existe nenhum explosivo no carro. Rotina comum por todo lado aqui no Paquistão.

Peguei o celular e ligue o número do Oisin. Para minha surpresa, ele atendeu.

– Paulo, Paulo, estou ferido mas estou vivo, estou vivo, ele gritava, entre histérico e aliviado. Eu podia ouvir gritos e muito barulho. Perguntei se ele precisa de apoio e que estava à sua disposição. Ele me disse que estava bem, mas muito assustado. Me falou do colega do WFP que também estava no hotel. Ele está bem, ele também está bem. Perguntei a ele se sabia do nosso pesssoal e ele me disse que não. Oisin foi foi removido para a delegacia de polícia e depois para Islamabad.

O rapaz do WFP me depois mandou um email agrececendo o apoio e me contou que ele só sobreviu porque tinha acabado de ir ao banheiro. Isto salvou a vida dele uma vez que o seu quarto ficou totalmente destruído.

Deixei o trabalho para  o pessoal especializado da ONU – não queria atrapalhar – e a coisa toda estava muito confusa. Infelizmente nenhuma notícia do pessoal da UNICEF. Ligamos a TV e ficamos assisindo cenas do hotel destruído, chocados.

Às duas e meia da manhã recebi um telefonema avisando que o corpo de nossa companheira havia sido encontrado. Já a outra moça, foi encontrada com vida, mas estava bastante machucada e com estilhaços de vidro por todo o corpo, estava sendo removida para o hospital. Sofreu várias cirurgias.

O dia seguinte foi difícil no escritório. Bem em frente a minha sala, ficava a sala da companheira que morreu, ela era chefe da área de educação. Difícil olhar para a frente, ver a sala vazia e fechada, e flores depositadas junto à porta.

Morreram 18 pessoas no ataque suicida.  Entre eles a funcionára da UNICEF e um rapaz da UNCHR (especialista em TI). A vida de um técnico em tecnologia da informação também pode ser perigosa.

A ONU ampliou as medidas de segurança e removeu todo o pessoal internacional de Peshawar. Em hotel no Paquistão não me hospedo mais.